Defesa de tese de doutorado de Luciene Carla Corrêa Francelino
Título: Corpos dissidentes: vivências e desafios de mulheres transtravestis na cidade de Cachoeiro de Itapemirim (ES) (2022-2024).
Data: 9 de abril de 2026.
Horário: 14h.
Link de acesso à reunião virtual: Solicitar link de acesso via email do PPGHis (ppghis.ufes [at] hotmail.com) até às 12h do dia 9 de abril de 2026.
Banca examinadora:
Profa. Dra. Maria Beatriz Nader (Presidente/Orientadora – UFES)
Profa. Dra. Lívia de Azevedo Silveira Rangel (Coorientadora – IFES)
Profa. Dra. Érika Oliveira Amorim Tannus Cheim (Examinadora Externa – UEMG)
Profa. Dra. Lídia Maria Vianna Possas (Examinadora Externa – UNESP)
Prof. Dr. Alex Silva Ferrari (Examinador Interno – UFES)
Prof. Dr. Sebastião Pimentel Franco (Examinador Interno – UFES)
Resumo: Esta tese analisa as experiências de mulheres trans e travestis no município de Cachoeiro de Itapemirim, no estado do Espírito Santo, a partir das interseções entre gênero, raça e classe. O estudo problematiza o binarismo de gênero enquanto estrutura normativa que legitima apenas duas identidades como naturais, sustentado pela heteronormatividade e por processos compulsórios de feminilização e masculinização desde o nascimento. A pesquisa mobiliza conceitos como identidade de gênero, cisgeneridade, transgeneridade e corporalidade trans e travesti, considerando suas dimensões históricas, políticas e sociais. Por meio da História Oral, método central deste trabalho, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com oito mulheres trans e travestis residentes em Cachoeiro de Itapemirim, com idades entre 20 e 42 anos, sendo quatro negras e quatro brancas, entre os meses de agosto de 2023 e janeiro de 2024. As narrativas foram analisadas a partir dos conceitos de transfobia, racismo e interseccionalidade, buscando compreender como esses marcadores sociais impactam a construção das subjetividades e as trajetórias de vida das interlocutoras. O estudo analisa o contexto conservador da cidade e problematiza a associação historicamente construída entre mulheres trans e travestis e o mercado do sexo, frequentemente imposto como horizonte possível a essas identidades. Examinam-se os espaços da vida noturna - a rua, a pista e a Noite enquanto atmosfera simbólica - como territórios de circulação, sociabilidade e aprendizagem, nos quais muitas delas, em algum momento da vida, se encontraram com suas pares e adquiriram técnicas de feminilização. Embora o trabalho sexual não constitua a atividade exercida pelas interlocutoras desta pesquisa, ele é discutido enquanto dimensão estrutural desses espaços e dos estigmas que atravessam suas trajetórias, sendo abordado sob uma perspectiva laboral e, em determinados contextos, também emancipatória, sem desconsiderar as múltiplas formas de violência que o caracterizam e a importância do debate sobre sua regulamentação. A pesquisa também evidencia como a família e a escola frequentemente operam como espaços de exclusão e controle de corpos dissidentes. Por fim, a tese dialoga com críticas feministas à noção de uma mulher universal, destacando as contribuições do feminismo negro e do transfeminismo. Analisa-se ainda o impacto da vulnerabilidade material e simbólica nos projetos afetivos dessas mulheres, ressaltando, apesar dos estigmas, a construção de redes de apoio, relações baseadas no amor e na reciprocidade e a ampliação das noções de família e pertencimento.
