Falecimento da Profa. Dra. Leia Brígida Rocha Alvarenga Rosa

Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa: uma vida dedicada à História e à Universidade
O falecimento da professora Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa representa uma perda profunda para a Universidade Federal do Espírito Santo e, de modo particular, para todos aqueles que se dedicam ao ensino e à pesquisa da História no Espírito Santo.
Léa Brígida pertenceu à geração que ajudou a constituir, institucional e intelectualmente, o campo profissional da História no estado. Sua trajetória esteve estreitamente ligada à própria formação do ensino superior capixaba: foi aluna e, posteriormente, professora da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Espírito Santo – FAFI, instituição que deu origem à Universidade Federal do Espírito Santo. Essa dupla condição — primeiro estudante e, depois, docente — fez dela testemunha e protagonista das transformações que conduziram à consolidação da História como área acadêmica no Espírito Santo.
Antes de sua atuação universitária, dedicou-se também ao ensino secundário, tendo sido professora do Colégio Estadual, participando da formação de sucessivas gerações de estudantes. Sua carreira atravessou, assim, diferentes níveis do ensino e foi marcada por um compromisso permanente com a formação intelectual e com o ensino da história.
Na universidade, atuou como assistente de cátedra do professor Nélson Abel de Almeida, uma das figuras centrais da constituição dos estudos históricos no Espírito Santo. Posteriormente, assumiu importantes responsabilidades administrativas, exercendo, por sete anos, a chefia do Departamento de História. Sua longa permanência nessa função evidencia não apenas o reconhecimento de seus pares, mas também sua participação decisiva na organização e na consolidação institucional do Departamento de História da UFES.
Sua trajetória acadêmica foi igualmente pioneira. Em uma época em que eram ainda poucos os docentes capixabas com formação pós-graduada em História, Léa Brígida realizou sua formação na Universidade de São Paulo, um dos principais centros de pesquisa histórica do país.
Em 1976, concluiu o mestrado em História Econômica, defendendo a dissertação Companhia Estrada de Ferro de Victória a Minas (1890–1940), sob orientação do professor Reynaldo Xavier Carneiro Pessoa. O estudo tomou como objeto uma das instituições fundamentais para a transformação econômica e territorial do Espírito Santo no século XX, examinando historicamente a constituição e o desenvolvimento da Estrada de Ferro Vitória a Minas.
A formação iniciada no mestrado teve continuidade poucos anos depois. Em 1980, Léa Brígida obteve o título de Doutora em História pela Universidade de São Paulo, com a tese Exportação do minério de ferro brasileiro em larga escala: 1910–1942, desenvolvida sob a orientação do historiador José Sebastião Witter. Com esse trabalho, ampliou a perspectiva de suas investigações anteriores, articulando a história econômica regional às transformações da economia brasileira e à expansão da exportação mineral em larga escala.
O conjunto dessas duas pesquisas revela a coerência e a consistência de sua trajetória intelectual. Ferrovia, mineração, circulação e exportação constituíam dimensões interligadas de um mesmo processo histórico: a progressiva inserção do Espírito Santo nas redes econômicas nacionais e internacionais. Ao dedicar sua formação de pós-graduação a esses problemas, Léa Brígida contribuiu para que processos decisivos da história econômica capixaba fossem incorporados à pesquisa histórica universitária.
Seu percurso acadêmico adquire um significado ainda maior quando situado no contexto das décadas de 1970 e 1980. A obtenção sucessiva dos títulos de mestre e de doutora em História pela Universidade de São Paulo representava, naquele momento, uma conquista excepcional no meio universitário capixaba. Léa Brígida integrou, assim, uma geração pioneira de historiadores que trouxe ao Espírito Santo a experiência da pesquisa histórica profissional vinculada à pós-graduação, ao trabalho sistemático com fontes e aos métodos da disciplina.
Sua importância, entretanto, ultrapassa seus títulos acadêmicos e sua produção individual. Léa Brígida integrou uma geração que contribuiu decisivamente para a profissionalização do ofício de historiador no Espírito Santo. Sua trajetória ajudou a aproximar os estudos sobre a história capixaba dos procedimentos e debates próprios da pesquisa universitária, sem jamais abandonar o compromisso com a divulgação desse conhecimento e com a formação de professores.
Sua atuação intelectual também se destacou em instituições voltadas à preservação e à divulgação da história do Espírito Santo. Atuou no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, onde foi a primeira e única mulher a presidir o IHGES. Ao longo de sua trajetória, manteve uma relação próxima com iniciativas voltadas à pesquisa, ao ensino e à valorização da memória histórica capixaba.
Recordar Léa Brígida significa, portanto, recordar também uma etapa fundamental da própria história da Universidade Federal do Espírito Santo. Sua vida profissional atravessou a FAFI, os primeiros tempos da Universidade, a organização do Departamento de História, a expansão da pós-graduação brasileira e a progressiva consolidação da pesquisa histórica no estado.
Foi professora quando ainda se construíam as bases institucionais da área; pesquisadora quando estudar academicamente a história do Espírito Santo exigia abrir caminhos; gestora quando o Departamento de História consolidava sua identidade universitária; e formadora quando novas gerações começavam a compreender que a história capixaba podia e devia constituir objeto de investigação histórica rigorosa.
Para aqueles que hoje integram o Departamento de História da UFES, sua trajetória faz parte de uma memória institucional que precisa ser preservada. Muito do espaço acadêmico que atualmente ocupamos foi construído pelo trabalho de professores e professoras de sua geração, que contribuíram para fazer da História uma profissão universitária no Espírito Santo e criaram condições para que novas gerações pudessem pesquisar, ensinar e formar historiadores.
Ao nos despedirmos da professora Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa, registramos não apenas a tristeza por sua partida, mas, sobretudo, o reconhecimento de uma vida dedicada à educação, à universidade e ao conhecimento histórico.
Sua memória permanecerá vinculada à história da FAFI, da Universidade Federal do Espírito Santo, do Departamento de História e da própria historiografia capixaba.
À família, aos amigos, aos antigos alunos e colegas, expressamos nossa solidariedade e nosso profundo pesar.
Departamento de História
Universidade Federal do Espírito Santo
