DOUT - Abordagens e Métodos em História Social e Política

Código: PHIS-101
Curso: Doutorado em História
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Ementa: A disciplina do curso de doutorado tem por objetivo discutir a constituição da assim denominada “Nova História Política” a partir da renovação historiográfica produzida, de um lado, pelos autores filiados à Escola dos Annales e, de outro, pelos marxistas os quais, ao investirem em pesquisas voltadas para os aspectos socioeconômicos e socioculturais da realidade histórica, produziram uma ampliação notável do horizonte de análise do historiador e, desse modo, criaram condições para que a História Política viesse a receber um novo tratamento. Com isso, alguns objetos que por tradição faziam parte da História Política foram revisitados, ao mesmo tempo em que outros foram instituídos. A disciplina, na sua qualidade de obrigatória, deve situar o aluno dentro do panorama geral de discussões acerca da História Política, sempre vinculada aos aspectos sociais da existência humana, o que implica, em primeiro lugar, numa reflexão acerca do poder, de como este é socialmente produzido, das suas modalidades de distribuição pelo conjunto dos segmentos sociais e da sua difusão pelos mais variados domínios da vida social.
Em segundo lugar, devem ser realizadas reflexões acerca do binômino Estado/Sociedade, de modo a demonstrar a complementaridade de ambos e de como a compreensão do teor das relações políticas vigentes em uma dada sociedade não se resolve apenas mediante o estudo do Estado e das suas instituições, mas deve incluir necessariamente uma abordagem micro de modo a revelar como o poder é exercido dentro de associações e organizações muitas das vezes sem uma conotação política evidente. Mediante tal perspectiva de análise, desfaz-se a oposição Estado/Sociedade que durante muitas décadas marcou os estudos de História Política. Nesse sentido, torna-se necessário também analisar como o Estado é socialmente produzido, ou seja, como o conjunto dos órgãos e instituições que o compõem se encontra em conexão direta com os diversos segmentos da estrutura social, os quais se articulam no âmbito da formação estatal para fazerem valer suas prerrogativas.
Conciliados os enfoques micro e macro acerca das relações políticas, o passo seguinte seria refletir sobre o binômio Ordem/Conflito como uma forma de compreender, por um lado, em que medida as relações de poder, ao instaurarem um conjunto de normas e de preceitos, sustentam a manutenção de uma relação desigual que favorece aqueles que se apresentam como investidos de autoridade. Por outro lado, deve-se levar em consideração o fato de que o poder que sustenta a ordem o faz sempre a partir de uma ótica circunscrita e sobre bases sociais que não são em absoluto universais, havendo sempre aqueles que não se submetem e que resistem à imposição de uma dada relação de poder, razão pela qual torna-se necessário prestar uma atenção particular aos movimentos sociais que rompem com o status quo, que impõem demandas aos poderes públicos e produzem representações alternativas sobre como construir uma sociedade melhor. O estudo do conflito, no entanto, não se esgota numa análise das organizações e movimentos sociais que desafiam o Estado, o que poderia nos induzir ao equívoco de considerar a formação estatal um bloco monolítico no interior do qual as classes dominantes selariam um pacto monumental com o intuito de preservar o seu domínio, uma vez que o conflito não apenas tem lugar pelo poder do Estado, mas entre os aparelhos de Estado e no interior de cada um deles. Com isso, o Estado se torna uma zona de confronto estratégica para os próprios segmentos que detêm, em maior ou menor medida, o controle sobre a autoridade pública.

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